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O populismo na política brasileira.

No senso comum, populismo é muitas vezes tido como o equivalente a práticas demagógicas, ligadas à manipulação da população por líderes habilidosos e carismáticos. No entanto, o populismo constituiu-se como um conceito desenvolvido na Sociologia associado a períodos de industrialização e a processos de certa mobilização popular. Leia com atenção as reflexões do sociólogo brasileiro Francisco Weffort a esse respeito e depois responda às questões propostas:

"O populismo, como estilo de governo, sempre sensível às pressões populares, ou como política das massas, que buscava conduzir, manipulando suas aspirações, só pode ser compreendido no contexto do processo de crise política e de desenvolvimento econômico que se abre com a revolução de 1930. Foi a expressão do período de crise da oligarquia e do liberalismo, sempre muito afins na história brasileira, e do processo de democratização do Estado que, por sua vez, teve que apoiar-se sempre em algum tipo de autoritarismo, seja o autoritarismo institucional da ditadura Vargas (1945-64). Foi também uma das manifestações das debilidades políticas dos grupos dominantes urbanos quando tentaram substituir-se à oligarquia nas funções de domínio político de um País tradicionalmente agrário, numa etapa em que pareciam existir as possibilidades de um desenvolvimento capitalista nacional. E foi sobretudo a expressão mais completa da emergência das classes populares no bojo do desenvolvimento urbano e industrial verificado nestes decênios e da necessidade, sentida por alguns dos novos grupos dominantes, de incorporação das massas ao jogo político [...]

Em realidade, o populismo é algo mais complicado que a mera manipulação e sua complexidade política não faz mais que ressaltar a complexidade das condições históricas em que se forma. O populismo foi um modo determinado e concreto de manipulação das classes populares, mas foi também um modo de expressão de suas insatisfações. Foi, ao mesmo tempo, uma forma de estruturação do poder para os grupos dominantes e a principal forma de expressão política da emergência popular no processo de desenvolvimento industrial e urbano. Esse estilo de governo e de comportamento político é essencialmente ambíguo e, por certo, deve muito à ambiguidade pessoal desses políticos divididos entre o amor ao povo e o amor ao poder. Mas o populismo tem raízes sociais mais profundas e a recuperação de sua unidade como fenômeno social e político é um problema proposto a quem estude a formação histórica do País nestes últimos decênios".

WEFFORT, Francisco. O populismo na política brasileira, 4º. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p. 61-63.

Francisco Weffort (1937-) é sociólogo e professor da USP. Foi ministro da Cultura do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). É autor de diversos livros e artigos sobre política e sociedade brasileira.

 

#SAIBA MAIS

- Ambíguo: Que pode ter diferentes significados. Duvidoso, incerto.

- Carisma: Na Sociologia - Conjunto de qualidades excepcionais de certas pessoas. Na Teologia - Dom da graça de Deus.

- Caudilhismo: Regime de predomínio dos caudilhos.

- Caudilho: Chefe de um bando ou partido que defende uma ideia. Chefe militar.

- Democracia: Governo do povo. Sistema político baseado no princípio da participação do povo.

- Eleição: Ato ou efeito de eleger.

- Estado: Nação politicamente organizada por leis próprias. Conjunto de poderes políticos de uma nação.Divisão territorial de certos países.

 

QUESTÕES SOBRE O TEXTO

01. Identifique a periodização utilizada por Weffort para a existência do populismo no Brasil.

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Resposta: Para Weffort, o populismo se estende de 1930 a 1964.

 

02. Quais são as características do populismo na visão de Weffort?

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Resposta: O populismo constituiu um mecanismo de controle político-social por parte dos grupos dominantes mas de incorporação das massas ao jogo político.

 

03. Demonstre, a partir do texto, que o populismo ultrapassou a mera manipulação das massas.

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Resposta: De acordo com o texto: "O populismo é algo mais complicado que a mera manipulação e sua complexidade política não faz mais que ressaltar a complexidade das condições históricas em que se forma. O populismo foi um modo determinado e concreto de manipulação das classes populares, mas foi também um modo de expressão de suas insatisfações. Foi, ao mesmo tempo, uma forma de estruturação do poder para os grupos dominantes e a principal forma de expressão política da emergência popular no processo de desenvolvimento industrial e urbano.

 

04. O conceito de populismo desenvolvido por Weffort pode ser aplicado ao Brasil nos dias de hoje? Justifique.

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Resposta: Não. Apesar do senso comum estabelecer uma equivalência entre populismo e demagogia, para Weffort o populismo se aplica a esse contexto específico de crise que se abre com a revolução de 1930. Nos dias atuais, a participação das massas urbanas (e também dos movimentos rurais) se dá através da representação direta, sem necessariamente a mediação de setores das classes dominantes.

 

 

#O populismo bossa-nova

As aparências cotidianas

A rígida moral não resistia ao Carnaval. Nos recatados bailes de salão, a classe média alta apartava-se do convívio com os grupos subalternos, mas ouvia as marchas e sambas produzidos nos morros cariocas, permitindo-se roupas e rebolados mais ousados, máscaras e farto consumo de lança-perfume. Nas ruas, sem as molduras dos salões, a massa ruidosa subvertia por alguns dias a hierarquia social, ocupando o espaço público sem pudores. Ao pé dos morros e nas vielas, a malandragem de terno e navalha vivia seu Carnaval o ano inteiro.

Numa época em que se presumia que as aparências não enganavam, mulher honesta não podia fumar em público, usar calça comprida ou entrar num cinema desacompanhada; o homem era obrigado a demonstrar sua valentia e proteger as damas de quaisquer grosserias; os filhos deviam manter-se respeitosos aos pais, mesmo diante de suas maiores arbitrariedades; o uso de uma camisa lilás ou rosa por um homem não deixava dúvida: tratava-se de um "mandraque".

Tempos de práticas preconceituosas, de discriminação, de maniqueísmo, de inconciliáveis oposições, de afirmação do bem contra o mal. Também nos comportamentos cotidianos vivia-se a Guerra Fria.

 

#SAIBA MAIS

- Mandraque: Gíria da época que significa "homossexual masculino".

- Maniqueísmo: Doutrina do persa Mani (séc. III), em que o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo. Doutrina que se funda em princípios opostos, bem e mal.

- Antagônico: Contrário, oposto.

 

QUESTÕES SOBRE O TEXTO

01. O texto aborda um período da História do Brasil em que Juscelino Kubitscheck (JK) governava o país. O governo de JK transcorreu num período de profundas contradições comportamentais. Quais contradições são relatadas no texto?

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Resposta: Trata-se de uma época marcada pela ambiguidade da valorização de elementos nacionais e da incorporação de valores e produtos culturais estrangeiros. Rock'n'roll, cinema estadunidense e musas internacionais habitavam os corações e as mentes dos jovens brasileiros. O maniqueísmo da Guerra Fria, que opunha os Estados Unidos à União Soviética, a URSS, também se verificava nos comportamentos. Uma rígida moral opunha-se aos desejos e às fantasias encobertos de uma sociedade ainda dominada por valores machistas e preconceituosos.
Tancredo Professor . 2017
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