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INTERPRETANDO O BRASIL. CIVILIZADOS OU CORDIAIS?

#REFLETINDO SOBRE NÓS MESMOS

Observando as maneiras de se comportar ou os hábitos mais comuns de uma sociedade, podemos entender melhor como ela se concebe a si mesma e como é percebida por quem está de fora. Veremos então, nas próximas linhas, a partir da observação dos nossos hábitos e costumes, o que certos intelectuais delinearam sobre a identidade brasileira.

A lista dos que se colocaram o desafio de responder à pergunta "o que é o Brasil' é longa e inclui sociólogos, advogados, literatos, antropólogos, geógrafos, historiadores, cientistas políticos, entre outros. Alguns como Gilberto Freyre e Oliveira Vianna, partiram de uma reflexão sobre nossa constituição racial. Outros, como Monteiro Lobato e Roberto DaMatta, para citar apenas dois, foram descobrindo a identidade brasileira a partir da comparação com outras nações. Outros, ainda, tomaram como ponto de partida elementos geográficos. Euclides da Cunha, por exemplo, acreditava que não era possível entender o Brasil sem passar pelas categorias de litoral e sertão. E aqui vale lembrar o que nos diz a cientista social Lucia Lippi Oliveira: a ideia de sertã, que aparece sob diferentes roupagens - às vezes como paraíso, outras como inferno ou purgatório -, é tão presente no imaginário social brasileiro que "o sertão pode e deve ser tomado como uma metáfora do Brasil". Se o sertão é concebido como marca do atraso econômico social, é visto também como lugar de gente valente, capaz de resistir às maiores penúrias.

Quer concordemos, quer não com o que é dito por esses intelectuais, o exame de suas interpretações nos leva a refletir sobre nós mesmos, sobre quem somos e como chegamos a sê-lo.

 

#CIVILIZADOS OU CORDIAIS?

Sérgio Buarque de Holanda, sem dúvida, figura entre os maiores intérpretes da nação. Em suas análises, ele faz uma analogia do Brasil com os tempos coloniais. Para o autor, a estrutura social de Portugal era marcada por uma "frouxidão organizacional", que levava a um padrão de convivência ao mesmo tempo mais flexível e mais instável. E, isso, evidentemente, teve reflexos no Brasil.

O autor desenvolve ainda uma ideia em torno da qual constrói sua interpretação sociológica: a do "homem cordial". Este seria o brasileiro típico, fruto da colonização portuguesa e representante conceitual de nossa sociedade. Acontece que, como a palavra "cordial" na linguagem comum tem o sentido de afável ou afetuoso, a ideia do "homem cordial" ficou associada à concepção do brasileiro como gentil, hospitaleiro e pacífico. E Sérgio Buarque de Holanda foi muito criticado por essa maneira de ver os brasileiros. Era uma forma idealizada, que não correspondia às atitudes mais corriqueiras percebidas no convívio social. A polêmica indica que é preciso examinar mais de perto o sentido da expressão escolhida pelo autor: por que "cordial"?

"Cordial" significa "relativo ao coração". Sérgio Buarque de Holanda usa a expressão "homem cordial" para indicar um tipo de sujeito que age de acordo com um "fundo emotivo transbordante", ou seja, com o coração, movido pela emoção. No lugar da formalidade, do respeito e leis universais, o homem cordial se vale da espontaneidade e aposta na lógica dos favores. É, assim, o exato oposto do homem que se orienta pelos códigos das boas maneiras e da civilidade, feitos para controlar e conter as emoções em nome de rituais e regras de convívio social. Exemplos da "nossa cordialidade"? Sérgio Buarque de Holanda nos oferece uma longa lista. Ele destaca nossa mania de utilizar diminutivos ("inho") como meio da familiarização com pessoas e coisas. Para tornar a espera menos aborrecida, pedimos que nosso interlocutor aguarde "cinco minutinhos", se alguém nos pede um "favorzinho", por maior que este seja, tendemos a atender de melhor grado. Esse emprego recorrente do diminutivo, assim como nossa aversão ao emprego dos verbos no imperativo (em geral, substituímos o "faça" por um "será que daria para você fazer"?) chama a atenção dos estrangeiros que entram em contato com a língua portuguesa tal como falada no Brasil.

 

#DIMINUTIVOS

[...]

No Brasil, usa-se o diminutivo principalmente em relação à comida. Nada nos desperta sentimentos tão carinhosos quanto uma boa comidinha.

- Mais um feijãozinho?

O feijãozinho passou dois dias borbulhando num daqueles caldeirões de antropófagos com capacidade para três missionários. Leva porcos inteiros, todos os miúdos e temperos conhecidos e, parece, um missionário. Mas a dona de casa o trata como um mingau de todos os dias.

- Mais um feijãozinho?

- Um pouquinho.

- E uma farofinha?

- Ao lado do arrozinho?

- Isso.

- E quem sabe mais uma cervejinha?

- Obrigadinho.

O diminutivo é também uma forma de disfarçar o nosso entusiasmo pelas grandes porções. E tem um efeito psicológico inegável. Você pode passar horas tomando "cervejinha" em cima de "cervejinha" sem nenhum dos efeitos que sofreria depois de apenas duas cervejas.

- E agora, um docinho.

E surge um tacho de ambrosia que é um porta-aviões.

VERISSIMO, Luis Fernando. Diminutivos. In: Comédia da vida privada: 101 crônicas escolhidas. Porto Alegre. LPM, 1994.

 

#O "JEITINHO BRASILEIRO"

Todo brasileiro sabe o que é um "jeitinho". Uma "carona" no ônibus, uma carteira de motorista "comprada", ou uma alternativa "criativa" para se livrar de uma multa de trânsito: são inúmeras as situações do dia a dia que podemos identificar como exemplos de prática do famoso "jeitinho brasileiro".

Mas o que o jeitinho pode nos dizer sobre nossa sociedade? Será que ele pode ser objeto de análise social? A antropóloga Lívia Barbosa mostrou que sim. Em seu livro O jeitinho brasileiro: a arte de ser mais igual que os outros (1992), a pesquisadora fez, por meio de uma série de entrevistas, uma verdadeira radiografia dessa prática social tão conhecida entre nós, mostrando que ela revela, acima de tudo, a dificuldade do brasileiro em lidar com o princípio básico da igualdade.

De acordo com a autora, o jeitinho é uma reação comum do brasileiro quando confrontado com um "não pode", com um impedimento legal (por exemplo, a proibição de estacionar em determinados lugares). Também conhecido como "quebra-galho" ou "malandragem", o jeitinho seria uma forma "especial" de resolver uma situação difícil. Uma das principais características do jeitinho é, segundo o estudo, o fato de ele ser aceito e praticado por todas as camadas sociais, dependendo, assim, da capacidade de cada um para conseguir dar uma solução "criativa" a uma impossibilidade formalmente imposta. O sucesso ou não do jeitinho depende, portanto, de características pessoais, como o carisma, a simpatia, o "jogo de cintura" etc. E como o jeitinho é visto pelos brasileiros? Lívia Barbosa afirma que a maioria dos entrevistados o situa entre o favor e a corrupção, e que a diferença entre esta última e o jeitinho está, sobretudo, no montante de dinheiro envolvido. É importante frisar que a pesquisa mostrou não haver distinção nítida entre essas três práticas, e que uma multa 'aliviada' por um guarda pode, dependendo da situação, ser vista como um favor, um jeitinho ou um ato de corrupção. Sempre permeado por um discurso emocional, o jeitinho tem um inevitável apelo à simpatia e à comoção do interlocutor. Ele é, assim, uma forma peculiar de sobrepor os interesses pessoais aos princípios da igualdade garantida por lei, numa prática que deixa bastante clara a relação complexa do brasileiro com os limites entre o mundo do privado e o do público.

 

#SAIBA MAIS

Sérgio Buarque de Holanda, autor de Raízes do Brasil, partiu da noção de homem cordial - aquele que age com o coração, movido pela emoção - para mostrar que a identidade brasileira não se funda na formalidade ou no respeito a leis universais.

Nós nos valemos mais da espontaneidade e apostamos muito na lógica dos favores. O conceito de homem cordial ajuda a perceber um dos traços de nossa sociedade: a confusão frequente entre o que é público e o que é privado, a visão do espaço público como um prolongamento do espaço privado. Essa característica se desdobra em outros fenômenos sociais, como o coronelismo, o apadrinhamento, o "jeitinho" e a corrupção.

Outro importante intérprete do Brasil é o antropólogo Roberto DaMatta. Com base na comparação entre a sociedade brasileira e a norte-americana, ele também se preocupou em entender como os brasileiros lidam com as esferas pública e privada. As marcas da identidade brasileira analisadas por DaMatta foram o "jeitinho brasileiro", o "você sabe com quem está falando?" e os sentidos de "casa" e "rua" para nós.

A "casa", no Brasil, é o espaço moral que encontra no "mundo da rua" seu oposto simbólico. "Nesse sentido", sugere DaMatta, "o espaço definido pela casa pode aumentar ou diminuir, de acordo com a unidade que surge como foco de oposição ou de contraste. A casa define tanto um espaço íntimo e privativo de uma pessoa (por exemplo, seu quarto de dormir) quanto um espaço máximo e absolutamente público, como ocorre quando nos referimos ao Brasil como nossa casa".

DaMatta chama nossa atenção para expressões cotidianas como "vá para o olho da rua!" ou "rua da amargura", que exemplificam o quanto a sociedade brasileira rejeita a rua, vista como lugar do impessoal, do isolamento e do desumano. A rua é o espaço da malandragem e do perigo, do que é "de ninguém". A expressão "sentir-se em casa", por sua vez, ajuda a pensar na relação afetuosa que estabelecemos com a casa. Ali nos sentimos protegidos pelos que nos querem bem, pelos que sabem quem de fato somos. Nosso maior pesadelo é nos vermos "sem casa", sem a rede protetora de nossas relações, "apenas" sob jugo da lei.

A casa e a rua marcam mudanças de atitudes, gestos, roupas, assuntos, papéis sociais. É muito comum, por exemplo, que o mesmo sujeito que faz questão de manter sua casa limpa e organizada se sinta à vontade para jogar lixo na calçada. Para muito brasileiros, atitudes como essa não são vistas como contraditórias. É por isso que DaMatta diz que o código da casa (pessoal e hierarquizante) e o código da rua (individualista e igualitário) são percebidos por nós como lógicas diferentes, mas nem por isso exclusivas ou hegemônicas. A singularidade do Carnaval brasileiro residiria justamente no fato de a rua tornar-se casa durante os festejos. Essa rua transformada em casa subverte tanto o código hierárquico da rua quanto o da própria casa: a rua passa a ser de todos e de ninguém. Daí o antropólogo dizer que o Carnaval é um ritual de inversão da realidade brasileira; uma festa sem dono num país que tudo hierarquiza.

Tancredo Professor . 2017
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