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PERGUNTAR E REFLETIR MAIS PARA SABER MELHOR

#Os "tempos modernos" se iniciaram no século XV, quando uma série de mudanças afetou a vida das sociedades europeias. A vida urbana foi então impulsionada como reflexo das Grandes Navegações e do descobrimento do comércio no continente europeu e no ultramar. A nova maneira de viver e de ver o mundo contrastava, cada vez mais, com a sociedade medieval, caracterizada por estratificação rígida e imobilidade social. A estratificação era reforçada pelo dogma cristão, que atribuía à vontade de Deus o lugar que cada um ocupava na sociedade. A Igreja também se encarregava de definir o que era certo e errado nos campos político, econômico e cultural. Com isso, por muito tempo, as atividades ligadas ao comércio não tiveram importância social, como tinham as atividades agrícolas.

O século XVIII se destacou no processo de mudanças que caracterizou os "tempos modernos" porque importantes revoluções tiveram nele seu berço: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. A primeira trouxe, para as cidades, novos contingentes originários das vilas rurais, o que gerou um profundo impacto social; e a segunda buscou assegurar direitos à nova população que havia se instalado no ambiente urbano. A cidade foi o espaço privilegiado para transformações sociais, econômicas e políticas na Era  Moderna. O ritmo urbano acelerado e as mudanças econômicas e políticas, bem como o desenvolvimento da ciência e da técnica, alimentaram a ideia de que a vida em sociedade é fruto do trabalho e da invenção humana. Essa nova mentalidade contribuiu para o desenvolvimento, em meados do século XIX, de um campo de estudos dedicado a compreender o sentido das transformações sociais e a maneira como os indivíduos a elas reagiam. Com essa promessa, nasceu a Sociologia.

 

#PERGUNTAR E REFLETIR MAIS PARA SABER MELHOR

- A Sociologia é uma disciplina intelectual que pretende produzir um conhecimento sistemático sobre as relações sociais.

- A Sociologia se debruça sobre fenômenos sociais que afetam nosso dia a dia. Afinal, somos seres que, por definição, vivem em sociedade. Algumas vezes, colaboramos e competimos uns com os outros - qualquer que seja a alternativa, estamos sempre em relação. Somos criaturas que não podem abrir mão da convivência em grupo, somos "animais sociais", como diria o filósofo Aristóteles. Mesmo os que optam por viver isoladamente, longe do contato com outros seres humanos, carregam consigo uma noção, uma ideia de "sociedade" da qual pretendem se afastar e cujos princípios renegam. Não à toa, o que estamos chamando aqui de fenômenos sociais muitas vezes provocam indagações. Por que a vida em sociedade é como é? Por que uns têm tanto e outros, tão pouco? Por que obedecemos ou contestamos? Por que as pessoas se unem ou se tornam rivais? O que é proibido e o que nos é imposto como obrigação? Por que os governos se organizam de determinada maneira, e não de outra? Essas e outras questões volta e meia nos intrigam, mesmo que não sejamos sociólogos de ofício. Quando, por exemplo, conversamos com um amigo ou colega, somos capazes de expressar opinião sobre qualquer um desses temas. Portanto, fazemos as mesmas perguntas que a Sociologia faz e identificamos os problemas nelas envolvidos.

Sem dúvida, a Sociologia trata de questões que reconhecemos, mas com uma linguagem própria, diferente daquela a que estamos acostumados na vida cotidiana. Ela emprega uma maneira de falar e de escrever distinta da que utilizamos para emitir opiniões pessoais. É que a sociologia se expressa por meio de conceitos, ou seja, noções formuladas de modo deliberado e preciso, e não por meio de noções de senso comum. O senso comum refere-se a um "saber-fazer", a uma habilidade baseada na experiência prática, cujo domínio possibilita a realização de tarefas específicas: para se fazer um ovo cozido, é preciso saber cozinhar. O senso comum inclui ainda o que a Filosofia chama de conhecimento proposicional, ou seja, um conhecimento que não é prático, um "saber que": você não precisa ser sociólogo para saber que a sociedade é composta de pessoas com diferentes níveis de renda. Crenças sem qualquerjustificação plausível, aquilo que chamamos de superstição, assim como convicções morais e políticas, também formam o senso comum. Por mais parcial ou fragmentada que seja a noção que as pessoas têm de como funciona o mundo social, esse é um conhecimento que fundamenta suas ações e interações cotidianas. "Sociologias práticas", conhecimentos que quaisquer pessoas utilizam rotineiramente e que não pressupões necessariamente o domínio de regras formais. A sociologia como disciplina se vale do senso comum na medida em que usa essas explicações que as pessoas dão para sua existência social como objeto de estudo.

A Sociologia, e sua pluralidade de vertentes teóricas, ajuda-nos a refletir sobre nossas certezas, põe sob observação as opiniões mais arraigadas. Uma boa teoria sociológica é como um Sistema de Posicionamento Global (GPS), aquela ferramenta digital de localização geográfica: ela nos ajuda a identificar os pontos relevantes, guia-nos em percursos mais sinuosos e evita que nos percamos entre lugares e fatos triviais. Nesse sentido, a Sociologia não seria um espelho imutável que reflete a vida social em toda a sua extensão. Fruto da concepção de seres humanos em um tempo específico, ela se aproxima muito mais da ideia de um mapa em construção, um GPS que só é eficiente na medida em que se atualiza. Sempre múltipla, ela é um campo do conhecimento que modifica a percepção que temos, de nossa rotina e, assim, contribui alterando a maneira como enxergamos nossa própria vida e o mundo que nos cerca.

A Sociologia trata daquilo que já sabemos de uma maneira que não conhecíamos antes. E quanto mais conhecemos a organização geral da sociedade, seus diferentes grupos e interesses, seus valores e suas instituições coletivas, mais capacidade temos de intervir na realidade e transformá-la.

Essa nova maneira de olhar as motivações dos indivíduos e as relações que estabelecem em sua vida cotidiana dependeu de acontecimentos que possibilitaram a construção de um conhecimento especial. A Sociologia que vamos estudar é filha dileta do que ficou conhecido como "tempos modernos".

 

Tancredo Professor . 2017
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