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ROMA ANTIGA E SEU IMPÉRIO MEDITERRÂNICO

 

LOCALIZAÇÃO E POVOAMENTO
A civilização romana resultou da fusão de vários povos e culturas. Inicialmente a Itália era habitada por povos chamados lígures ou iberos, provenientes dos Alpes e da Península Ibérica. Por volta de 2000 a.C. foi invadida por indo-europeus, que tiveram grande influência nas diferentes civilizações que se formaram na Península Itálica.
A estreita faixa de terra, correspondente ao baixo rio Tibre, formava o Lácio, habitado pelos latinos. Ao norte do Tibre, numa extensa área, ficava a Etrúria, terra dos etruscos, povo de origem incerta, provavelmente oriental. O extremo sul era pontilhado de colônias gregas formando a Magna Grécia. No extremo norte, dominando o vale do rio , estavam os gauleses ou celtas.

 

AS ORIGENS DE ROMA
Roma, atual capital da Itália, foi a cidade mais importante do mundo antigo. Até hoje, depois de séculos, as antigas construções romanas, como o Coliseu, o Fórum e as termas, encantam os turistas.
Os romanos fixaram a data de fundação da sua cidade no ano de 753 a.C.  Escavações arqueológicas confirmaram que por volta do século VIII a.C. já havia uma aldeia de pastores e agricultores no local. Na região havia outras aldeias semelhantes, habitadas por tribos latinas. Os latinos, dos quais os romanos são descendentes, são étnica e culturalmente aparentados aos gregos: possuem língua, deuses e costumes de origem comum.
Os próprios mitos que narram a fundação da cidade de Roma vinculam a história romana à grega. Segundo esses mitos, Eneias, guerreiro e nobre, filho da deusa Vênus e de Anquises, fugiu da cidade de Troia quando de sua destruição pelos gregos.
Acompanhado do pai e do filho, depois de muito sofrer, Eneias chegou à Itália, fundou uma cidade, Alba Longa e introduziu o culto de seus deuses no Lácio. Ao fazer isso, o herói mudou a sua vida e a de todos os habitantes da região.
Seu filho, Ascânio, foi o primeiro rei da cidade de Alba Longa e continuou cumprindo a missão do pai, guardando o templo, gerando descendentes, defendendo a cidade. Eles deram origem à “raça latina” em Alba Longa. Essa era a grande missão de Eneias.
Os mitos narram ainda que, depois de 12 gerações, nasceram em Alba Longa dois gêmeos, Rômulo e Remo, descendentes de Eneias e dos fundadores de Roma.
De acordo com os relatos mitológicos, o rei Numitor foi deposto do trono de Alba Longa por seu irmão, Amúlio. Além de lhe tirar o trono, Amúlio eliminou os filhos de Numitor e transformou sua filha, Reia Sílvia, numa vestal, ou seja, uma sacerdotisa da deusa Vesta que devia se manter virgem e se dedicar ao serviço do templo. Isso para impedir que o rei deposto tivesse descendentes que pudessem reivindicar o trono.
Mas Reia Sílvia acabou engravidando do deus Marte, dando à luz aos gêmeos, Rômulo e Remo. Apesar de serem abandonados nas margens do rio Tibre por ordem de Amúlio, as crianças sobreviveram. Sempre de acordo com os mitos, elas formam amamentadas por uma loba e depois recolhidas por um pastor. Adultos, descobriram a sua origem e conseguiram se vingar: depuseram Amúlio e reconduziram o avô ao trono.
Roma foi fundada pelos gêmeos no mesmo local onde foram abandonados. Durante os rituais de fundação da cidade Rômulo se desentendeu com Remo; Rômulo traçou sobre o monte Palatino um grande círculo, sulcando o solo com um arado. A terra revolvida simbolizava a muralha e o sulco representava o fosso da nova fundação urbana: Roma. Mas Remo zombou e pisoteou o desenho. Furioso, Rômulo saltou sobre Remo e o matou com um golpe de espada. E sentenciou: “Assim morrerá quem, de futuro, transpuser as minhas muralhas”; matou o irmão e se tornou o primeiro rei de Roma.
Essa é a memória de raízes mitológicas que os romanos guardavam da origem da cidade.
A região do Lácio, onde está situada a cidade de Roma é uma planície fértil, cortada pelo rio Tibre e naturalmente protegida por sete montes, as famosas sete colinas de Roma.
Essa aldeia e outras vizinhas acabaram sendo conquistadas e dominadas pelos etruscos, um povo provavelmente de origem asiática que desenvolveu uma brilhante civilização no norte da Península Itálica. Em sua expansão em direção ao sul, os etruscos tomaram o Lácio e ali fundaram a urbs (“cidade”, em latim). Foi com a dominação etrusca que Roma deixou de ser uma simples aldeia e se tornou uma verdadeira cidade.
Segundo a tradição, Roma teve sete reis, os quatro primeiros latinos e os três últimos etruscos. A Monarquia foi então o primeiro período da história romana, uma época sobre a qual temos poucas informações, sendo difícil separar o mito dos fatos históricos. Ainda segundo a tradição, o último rei romano foi destronado e expulso da cidade por uma revolta liderada pelas famílias nobres, os patrícios, em 509 a.C. Esse episódio marcou o fim da dominação etrusca e a implantação da República, o segundo período da história.
No regime republicano de Roma os cargos públicos estavam exclusivamente nas mãos dos patrícios. O povo em geral, constituído pelos plebeus, não tinha direitos políticos. Os plebeus só vão adquirir esses direitos ao longo do período republicano e depois de muita luta contra os privilégios patrícios. Os escravos, cujo número foi aumentando cada vez mais, não tinham direitos.

 

PRIMEIROS POVOADORES
Em diferentes épocas, diversos povos instalaram-se na península Itálica. Destacaram-se, entre eles:
.Os italiotas teriam se deslocado da Europa Oriental em sucessivas levas por volta de 1500 a.C. Dentre eles, destacaram-se os úmbrios, os latinos, os sabinos, os volscos e os samnitas. Os latinos fixaram-se nas colinas do Lácio, onde fundaram várias povoações, das quais a mais importante se chamava Alba Longa. Mais tarde, alguns latinos deixaram Alba e fundaram a cidade de Roma.
.Os gregos fixaram-se ao sul e viviam na denominada Magna Grécia. Fundaram cidades como Cumes, Nápoles e Paestum, na Campânia; Crotona, Sibáris e Tarento, no extremo sul; Siracusa e Agrigento, na Sicília.
.Os etruscos, provavelmente, eram originários da Ásia Menor. Por mar teriam desembarcado na Etrúria (atual Toscana) e conquistado um grande território ao norte onde fundaram várias cidades importantes.
Os latinos deixaram Alba Longa e fundaram Roma, mas posteriormente, por volta do século VI a.C., os etruscos teriam conquistado a região e tomado posse da cidade.

 

PERIODIZAÇÃO CONVENCIONAL DA HISTÓRIA ROMANA
A história política de Roma é dividida, tradicionalmente, nos seguintes períodos:
.Monarquia (753 - 509 a.C.) – era uma pequena cidade sob a influência dos etruscos. Em 509 a.C. temos a instauração da República.
.República (509 - 27 a.C.) – desenvolveu suas instituições sociais e econômicas e expandiu seu território, tornando-se uma das maiores civilizações do Mundo Antigo.
.Império (27 a.C. - 476 d.C.) – desfrutou de estabilidade política e paz por cerca de dois séculos. A partir de então, os romanos enfrentaram inúmeros problemas internos e externos. O agravamento desses problemas levou ao declínio da civilização romana.

 

- A MONARQUIA (753 - 509 a.C.)
A tradição lendária estabelece que a cidade foi governada por sete reis, sendo o primeiro Rômulo (até 717 a.C.). Esses reis eram eleitos pelo consenso dos mais velhos das tribos e acumulavam também a função de sacerdote.
Durante esse período, Roma possuía uma economia essencialmente agrícola. Com a dominação etrusca, o comércio e o artesanato evoluíram bastante.
A sociedade se baseava na gens, um grupo de pessoas com antepassado comum; além de seus membros naturais, a gens abrigava outros membros, que ficaram conhecidos como clientes. A família romana teve origem na gens, dirigida pelo páter-famílias, o elemento mais velho, que tinha autoridade sobre os filhos e os bens do grupo, inclusive os escravos. Aos poucos, a família romana tornou-se mais importante que a gens, pois os patres-famílias passaram a ocupar cargos importantes na direção da cidade.
A base política era a cúria, organização composta de toda a população, exceto os poucos escravos da época. Nas assembleias das cúrias era escolhido o rex sacrorum, isto é, o rei, que tinha funções políticas, militares e religiosas.
As famílias ricas iam dominando grande parte das propriedades e ocupando as funções mais importantes do governo. Seus membros eram os patrícios, descendentes dos patres-famílias. Os demais eram considerados plebeus (a plebe) e eram pequenos proprietários, comerciantes ou artesãos; não tinham participação política.
Segundo a tradição, os três reis depois de Rômulo foram latinos ou sabinos: Numa Pompílio, Túlio Hostílio e Anco Márcio.
A partir de 616 a.C., ainda segundo a tradição, Roma passou a ser governada por reis etruscos. A anexação de Roma ao Império Etrusco fez com que essa cidade passasse a exercer forte hegemonia sobre a região do Lácio.
O primeiro rei etrusco a governar Roma foi Tarquínio Prisco, que foi sucedido por Sérvio Túlio. Este se notabilizou pela reforma político-militar que executou, permitindo aos plebeus o acesso ao serviço militar e à ainda limitada participação política. Para isso, foi criada a Assembleia Centuriata, da qual participavam todos os soldados, ao contrário da Assembleia Curiata, monopólio das tribos patrícias.
Tarquínio, o Soberbo, sucedeu a Sérvio Túlio. Em seu governo, os patrícios foram mantidos à margem do poder político decisório da cidade. O rei etrusco era apoiado pelos plebeus, inimigos dos patrícios. Por essa razão, os patrícios derrubaram-no, por um golpe de Estado, em 509 a.C., e instituíram a República (res publica = coisa pública).
O movimento dos patrícios que inaugurou a República em Roma tinha por objetivo afastar a nobreza etrusca do poder. Os patrícios venceram os etruscos porque sua rebelião coincidiu com a decadência do Império Etrusco. Aproveitando-se dessa decadência, os patrícios substituíram o governo monárquico por um governo oligárquico, que atendia aos seus interesses. Uma república controlada pelos ricos proprietários da nobreza patrícia.
Em resumo, a sociedade romana, no período monárquico, estava assim dividida:
.patrícios – grandes proprietários de terras, rebanhos e escravos. Desfrutavam de direitos políticos e podiam desempenhar altas funções públicas no exército, na religião, na justiça ou na administração pública. Eram os cidadãos romanos;
.clientes – homens livres que associavam aos patrícios, prestando-lhes diversos serviços pessoais em troca de auxílio econômico e proteção social;
.plebeus – homens e mulheres livres que se dedicavam ao comércio, ao artesanato e aos trabalhos agrícolas. Constituíam a maioria da população romana e, a princípio, não tinham direitos de cidadãos;
.escravos – inicialmente, devedores incapazes de pagar suas dívidas. Posteriormente, com a expansão militar, o grupo passou a incluir prisioneiros de guerra. Realizavam as mais diversas atividades, como serviços domésticos e trabalhos agrícolas, além de desempenharem as funções de capatazes e artesãos.
O escravismo não desempenhou papel significativo durante a monarquia romana.

 

- REPÚBLICA (509 - 27 a.C.)
O órgão máximo de poder na nova estrutura política instaurada em Roma era o Senado (de senex = velho), que exercia funções legislativas e controlava toda a administração e as finanças, tendo poder até mesmo para declarar guerras. O Senado acumulava várias funções, entre as quais a de garantir a tradição romana e assessorar as magistraturas. A função de senador era vitalícia.
Os magistrados que administravam a República romana eram:
.os cônsules, sempre em número de dois, que propunham as leis, presidiam o Senado e as assembleias e, em caso de guerra, nomeavam um ditador temporário;
.os pretores, que administravam a justiça;
.os censores, que faziam a contagem e a classificação da população de acordo com a renda;
.os edis, que cuidavam da conservação, abastecimento e policiamento da cidade;
.e os questores, encarregados do Tesouro público, ou seja, das finanças do governo.
As instituições republicanas completavam-se com as assembleias (centurial, curial e tribal), encarregadas da nomeação dos magistrados e da ratificação das leis.
O sistema político republicano era controlado pelos patrícios, daí seu caráter oligárquico. Os plebeus, marginalizados e descontentes com sua situação, eram fonte de crescente tensão, e a Roma republicana vivia sempre a possibilidade de uma convulsão social.
Em 494 a.C., os plebeus revoltados retiraram-se de Roma para o Monte Sagrado (monte Aventino), passando a exigir representação política na cidade. Sem os plebeus, as atividades de Roma ficaram paralisadas, e com isso eles conseguiram demonstrar que sua importância real se refletia em direitos políticos. Os patrícios cederam à pressão e criaram o cargo de tribuno da plebe que, eleito pelos plebeus, tinha poder de veto sobre as decisões do Senado. O acontecimento é tido como um dos primeiros casos de intensa mobilização popular para forçar a concessão de benefícios por parte das classes dominantes.
Outras conquistas foram obtidas pelos plebeus, que, antes dessas lutas, não podiam participar das decisões políticas, exercer cargos da magistratura ou casar-se com patrícios. Algumas delas foram expressas em forma de leis:
. Lei das Doze Tábuas (450 a.C.) – Primeira compilação das leis romanas. Até então as leis eram transmitidas oralmente e quase sempre manipuladas a favor dos patrícios; agora as leis estavam escritas e ficavam expostas em tábuas no prédio do fórum romano, para conhecimento de todos.
. Lei Canuleia (445 a.C.) – Autorizava o casamento entre patrícios e plebeus. Na prática, apenas os plebeus ricos conseguiram se casar com patrícias.
. Leis Licínias (367 a.C.) – Que eliminaram a escravização por dívidas. Determinaram o direito dos plebeus ao acesso às terras públicas (conquistadas por meio de guerras) e às altas magistraturas (como o consulado).
. Lei Poetelia Papira (326 a.C.) – Proibia a escravidão de cidadãos romanos por dívidas.
. Lei Ogúlnia (300 a.C.) – Garantiu a igualdade religiosa entre plebeus e patrícios, permitindo aos plebeus o direito de acesso aos colégios sacerdotais.
. Lei Hortênsia (287 a.C.) – Que permitia que leis fossem aprovadas pelas assembleias da plebe, de onde origina-se o termo plebiscito. Determinou que os decretos aprovados (plebiscitum) passariam a valer para toda a República.
Mesmo assim, os conflitos sociais continuaram principalmente em consequência das transformações econômicas provocadas pela política de expansão territorial da República romana. Entre os séculos V a.C. e III a.C., Roma conquistou toda a Península Itálica. O ponto alto dessas conquistas ocorreu com as Guerras Púnicas contra Cartago. Essa cidade, fundada por fenícios, controlava praticamente todo o comércio na Bacia do Mediterrâneo desde o enfraquecimento grego decorrente das Guerras do Peloponeso. Sua situação geográfica privilegiada, uma vez que estava situada no norte da África e dominava a ilha da Sicília, contribuiu para o monopólio da ligação do Mediterrâneo ocidental com o oriental pelos cartagineses.
Já os romanos viam a Sicília como um prolongamento da península e tinham interesse em suas terras férteis. O choque de imperialismos entre Roma e Cartago acabou por desencadear a guerra. Entre 264 a.C. e 146 a.C., ocorreram três grandes guerras, que culminaram com a destruição de Cartago e o controle romano de vastos territórios espalhados por todo o Mediterrâneo.

 

AS GUERRAS PÚNICAS (púnico = cartaginês)
A cidade de Cartago tornou-se um importante centro comercial do Mediterrâneo no século IV a.C. Os cartagineses estabeleceram um Império que abrangia o norte da África, regiões do litoral da península Ibérica e a Sicília ocidental.
A guerra entre Cartago e Roma teve início pelo domínio da ilha da Sicília. Os governantes romanos temiam que Cartago usasse a ilha como base para atacar a península Itálica ou para interferir em seu comércio.
Em 264 a.C., o governo de Roma decidiu pela intervenção militar na Sicília.
Lutando ao lado das tropas de seus aliados de toda a península Itálica, os romanos por fim venceram Cartago, que propôs a paz em 241 a.C., entregando a Sicília. Com a anexação de territórios fora da península Itálica, transformados em províncias, Roma começou a construir seu império.
Após a derrota na Primeira Guerra Púnica, Cartago estendeu seu poder a península Ibérica, de onde iniciou sua expansão, gerando a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.). Comandado por Aníbal (247-183 a.C.), o exército cartaginês, com mais de 100 mil soldados, avançou para o norte da Itália. Na batalha de Canas (216 a.C.), aniquilou um exército romano de 80 mil soldados, a maior concentração de forças que Roma já pusera em campanha.
Como resposta, Roma invadiu o norte da África, forçando Aníbal a retirar suas tropas da península Itálica para defender o território cartaginês. Aníbal, que vencera todas as batalhas na península, foi derrotado em Zama, em 202 a.C. Essa batalha assinalou o fim da Segunda Guerra Púnica.
Cinquenta anos depois, o terceiro e último conflito: os romanos, ainda preocupados com o poder econômico cartaginês, invadiram Cartago, que foi completamente arrasada; teve seu território transformado em província romana e seus habitantes escravizados. A vitória transformou Roma na única grande potência do Mediterrâneo ocidental.
Roma acelerou, então, o contato com o mundo helenístico, atraída para os negócios gregos. Sua intervenção na Grécia levou-a a se impor sobre os reinos helenísticos. Dominados, os Estados helenísticos tornaram-se províncias de Roma e perderam a liberdade de ação nos negócios externos. A partir de então, a cultura grega iria exercer forte influência sobre os romanos.

 

REPERCUSSÕES DAS CONQUISTAS
As conquistas provocaram profundas transformações em Roma. O Senado passou a administrar um vasto território, e a riqueza produzida convergia para a cidade, que agora era a capital de um grande Império. O enorme afluxo de bens das províncias conquistadas, pela pilhagem de guerra ou pela cobrança de tributos, produziu um impacto na economia, com a queda cada vez mais acentuada dos preços dos produtos agrícolas. Em outras palavras, a guerra expansionista passou a ser um elemento-chave da economia romana.
Os patrícios ligados ao Senado eram os maiores proprietários de terras. Os pequenos proprietários plebeus da Península Itálica, não encontrando condições de sobreviver no campo, vendiam suas terras e transformavam em mão de obra barata na cidade.
A cidade de Roma, em consequência, passou a crescer desmedidamente, o que elevou a tensão social. Dos territórios conquistados chegavam milhares de escravos, consolidando a economia escravista. Surgiu uma poderosa classe de comerciantes, chamados de homens-novos, ansiosos por alguma participação política. Toda essa situação configurou a crise da República romana, pois o governo oligárquico não tinha mais condições de fazer frente às crescentes pressões sociais e políticas.

 

A CRISE DA REPÚBLICA
A POLÍTICA DOS IRMÃOS GRACO
A tensão social aumentava. Uma nova tentativa de superação da crise foi a ideia de reforma agrária, proposta pelos irmãos Graco. Os irmãos Tibério e Caio Graco, que exerciam o cargo de tribunos da plebe, viam na distribuição de terras uma forma de superar a crise, satisfazendo as necessidades da plebe empobrecida.
Em 133 a.C., Tibério propôs que as terras do estado deveriam ser distribuídas para os cidadãos pobres. Sob forte oposição das elites romanas, a proposta, inicialmente feita por Tibério, foi aprovada, mas sua execução acabou sendo impedida.  Tibério Graco e mais trezentos defensores da reforma agrária foram assassinados. Anos mais tarde, o eleito tribuno Caio Graco, em 124 a.C., retomou o projeto da lei agrária sem, no entanto, considerar os ricos proprietários de terra. Em 121 a.C., pressionado, Caio pediu que seu escravo o matasse e seus muitos seguidores acabaram perseguidos e mortos.
Ao fim desse processo, o projeto de reforma política e agrária dos irmãos Graco fracassou e a concentração de terras nas mãos dos patrícios continuou a existir. A questão agrária continuou desencadeando tensões sociais e outras tentativas de redistribuição de terras foram defendidas, como a de 91 a.C., por iniciativa do tribuno Marco Lívio Druso que acabou sendo assassinado.
Os conflitos entre patrícios e plebeus somavam-se às constantes revoltas de escravos, às rebeliões de povos conquistados contra os impostos e a escravidão, às pressões de chefes militares sobre os governantes na defesa de seus interesses. Os problemas sociais desgastavam a República romana.
Na tentativa de solucionar a crise do governo, o Senado aumentou de dois para três o número de cônsules, escolhidos entre os chefes militares, o que representava a implantação de uma nova forma de governo – Triunvirato (palavra latina que significa “três em um”).
O Primeiro Triunvirato iniciou-se no ano 60 a.C. e foi composto pelos generais Júlio César, Pompeu e Crasso. Eles dividiram o governo das províncias romanas da seguinte maneira: o primeiro ficaria encarregado da Gália; o segundo, da península Ibérica; e o terceiro, da Síria. No entanto, a morte de Crasso em combate na Ásia, em 53 a.C., precipitou a disputa de poder entre Pompeu e Júlio César.
Nessa disputa, o Senado apoiou Pompeu e o nomeou como líder máximo de Roma, temendo o grande prestígio de Júlio César junto à plebe e ao exército romano por ter vencido os habitantes da Gália (atual França). Além disso, os senadores tinham outro motivo para criticar Júlio César e querer diminuir seu poder: o envolvimento amoroso com uma mulher estrangeira – Cleópatra, a rainha dos egípcios, que havia se tornado um povo protegido por Roma.
Ignorando a decisão do Senado, Júlio César invadiu Roma com suas tropas e não encontrou resistência do exército romano, forçando a fuga de Pompeu para a Grécia, e de lá para o Egito, onde mandou assassiná-lo. Com essas manobras políticas e militares, ele conseguiu que os senadores o nomeassem como ditador vitalício.
À frente do governo, Júlio César realizou diversas reformas, com as quais ampliou ainda mais o apoio da população romana:
. dividiu as terras e criou colônias para atrair às áreas rurais os plebeus que estavam sem trabalho nas cidades;
. concedeu cidadania aos povos conquistados;
. determinou que os grandes proprietários de terras empregassem pelo menos um terço de trabalhadores livres;
. anulou o poder do Senado;
. limitou os poderes dos tribunos e das assembleias;
. construiu diversas obras públicas;
. reformou o calendário romano e criou o mês julho em sua própria homenagem.
Agravaram-se as divergências entre Júlio César e os senadores, que percebiam claramente sua intenção de abolir a República e restabelecer a monarquia como forma de governo em Roma.
Descontentes com as reformas de Júlio César, muito senadores conspiraram contra ele e, em 44 a.C., tramaram seu assassinato, que ocorreu dentro do Senado.
As reações populares e do exército romano foram muito maiores do que previam os senadores, que não conseguiram retomar o poder à sua maneira. Ao contrário, em 43 a.C., o Segundo Triunvirato foi formado por três generais fiéis a Júlio César: Otávio, Lépido e Marco Antônio.
O poder político sobre Roma e seu vasto território foi assim dividido entre eles: Otávio passou a governar Roma e as províncias do Ocidente; Marco Antônio, as províncias do Oriente; e Lépido, as províncias da África. No entanto, as disputas e rivalidades entre os triúnviros continuaram, agravando a crise política. A República Romana e autoridade do Segundo Triunvirato corriam sério risco de serem dissolvidas.
Em 33 a.C., Lépido perdeu poder político e foi afastado do triunvirato, passando a exercer o cargo de sumo sacerdote, com funções apenas religiosas. Era um sinal de que, mais uma vez, os dois triúnviros restantes iriam disputar o poder total sobre Roma.
Para se aproximar de Marco Antônio e melhor controla-lo, Otávio deu-lhe sua própria irmã, Otávia, em casamento. No entanto, Marco Antônio desentendeu-se com Otávio, separou-se da esposa e uniu-se a Cleópatra. A rainha do Egito tivera um filho com Júlio César, Cesárion, e pretendia fazê-lo um dos governantes de Roma como forma de manter o Egito livre do domínio romano.
Pressionados pelas tropas fiéis a Otávio e temendo a derrota, Marco Antônio e Cleópatra suicidaram-se; ele, para não se submeter a outro general romano, e ela, para não testemunhar a humilhação de seu povo. O Egito foi então conquistado, e o prestígio e a autoridade de Otávio se ampliaram. De volta a Roma, foi recebido e aclamado como grande herói.
Em demonstração de apoio a Otávio, o Senado concedeu-lhe os títulos de princeps senatus (chefe do Senado e Primeiro Cidadão), augusto (sagrado), procônsul (principal comandante militar), pontífice máximo (chefe religioso) e imperador (general vitorioso). Ao acumular tal poder, no ano 27 a.C., Otávio Augusto (como passou a ser chamado) tornou-se o primeiro imperador romano, marcando o fim do período republicano.

 

- O PRINCIPADO DE AUGUSTO E A PAX ROMANA
Pode-se dividir o Período Imperial em duas fases: a do Alto Império, ou Principado (27 a.C.-235 d.C.), época áurea do regime imperial, e a do Baixo Império, ou Dominato (235-476 d.C.), marcada por uma forte instabilidade política, militar e econômica.
O regime imperial é decorrente da grande expansão territorial dos romanos. O senado, principal órgão político da República, pelo seu caráter extremamente conservador, mostrou-se incapaz de administrar um vasto império e perdeu o controle político da situação.
Nessas circunstâncias, o poder efetivamente se concentrou em torno da figura do imperador, que passou a governar equilibrando-se sobre as três principais forças políticas: o Senado, a plebe urbana e, sobretudo, o exército. A fase conhecida como Principado foi marcada pela crescente influência do exército na vida política.
O Principado de Augusto foi responsável pela montagem do novo sistema político. Ele empregou e equilibrou, na burocracia do Estado, os grupos mais privilegiados (patrícios e novos ricos ligados ao comércio), atenuando a tensão existente. Além disso, Otávio oficializou a política do pão e circo, a distribuição de trigo e a realização de espetáculos para as massas, como as corridas e lutas de gladiadores, o que apaziguou a plebe urbana. As reformas realizadas na época serviram de modelo para o funcionamento da nova máquina burocrático-militar, que governou o Império Romano pelos séculos seguintes.
O longo governo de Augusto criou a guarda pretoriana para proteger a capital e o imperador. As províncias foram divididas em dois grupos: senatoriais e imperiais, sob o domínio do Senado e do imperador, respectivamente. O Principado de Augusto tirou Roma da guerra civil, inaugurando um longo período de estabilidade política.
Nessa época, as conquista foram reduzidas, a fim de consolidar as fronteiras. Essa política ficou conhecida como Pax Romana e, como tal, trouxe uma série de benefícios ao Império.
A Pax Romana também favoreceu as letras e as artes. Escritores, artistas e poetas passaram a receber apoio oficial por meio de Caio Mecenas, um dos ministros do imperador. As antigas virtudes romanas foram revigoradas. O poeta Virgílio, por exemplo, reavivou as lendas da fundação de Roma. Tito Lívio, por sua vez, escreveu uma história para a cidade de Roma.
Apesar das conquistas no Danúbio e na Judeia, a partir dessa época, as legiões se tornaram forças essencialmente defensivas, responsáveis pela fortificação das fronteiras imperiais. Em troca de fidelidade, o Principado de Augusto proporcionava paz, estabilidade e segurança.
O período da Pax Romana, vivido pelo Império nos séculos I e II, foi também um tempo de crescimento econômico e, particularmente, de expansão e dinamização do comércio. Entre os fatores que favoreceram essa expansão, podemos citar: a existência de portos bem equipados, uma rede de estradas bem planejadas e o uso de uma moeda única (o denário) em todo o Império.
Com Augusto, o mar Mediterrâneo passou a ser chamado de Mare nostrum (nosso mar) pelos romanos, servindo de ligação entre as mais diferentes regiões do Império. Pelo mar, os romanos transportavam com segurança cargas preciosas, conduzidas posteriormente até as cidades mais distantes do litoral por uma rede de estradas.

 

A “ERA DE OURO” DO IMPÉRIO
A partir da morte de Otávio Augusto, imperadores tomaram o poder sucessivamente, sob as mais diversas formas. O princípio da hereditariedade não foi estabelecido. Assim, alguns imperadores foram indicados pelos seus antecessores. Outros ocuparam o cargo por serem seus filhos ou herdeiros legítimos. Houve ainda imperadores eleitos pelo Senado ou aclamados pelas legiões, bem como aqueles que usurparam o poder.
No centro da arena política, as dinastias imperiais ficavam sujeitas a intrigas e conspirações. Em consequência disso, assim como houve imperadores aparentemente loucos e cruéis, vários deles foram assassinados. As dificuldades de encontrar sucessores à altura das responsabilidades inerentes ao trono imperial e o abuso de poder pelos “escolhidos” foram constantes ao longo de todo o Período imperial. Nero por exemplo, governou de 54 a 68 d.C. Sem as qualidades de um grande general, decidiu conquistar os aplausos e a popularidade entre a plebe romana como um artista. Entretanto, conforme relatos, ele acabou mandando matar a própria mãe e incendiando parte de Roma.
De qualquer forma, durante os séculos I e II d.C., o Império Romano viveu dias de prosperidade política, econômica e cultural. De modo geral, as fronteiras estavam bem guarnecidas, a administração e a economia funcionavam e a cultura florescia como nunca.
Na primeira metade do século II, com a anexação da Dácia, Armênia e Alta Mesopotâmia, o imperador Trajano levou o Império à sua máxima expansão territorial. Seu sucessor, Adriano, de origem hispânica, viajou durante anos pela maioria das províncias, levando até os provinciais a sensação de pertencerem a um mundo comum, contribuindo, assim, para o avanço da romanização de um vastíssimo território.
Nesse período, as estradas garantiam estabilidade e prosperidade. Muitos imperadores procuravam deixar sua marca na cidade por meio da construção de grandes monumentos. Pontes, aquedutos, termas, anfiteatros, mausoléus, colunas, arcos de triunfo, enfim, edificações monumentais exploravam as diferentes habilidades construtivas dos povos que passaram a fazer parte do Império. Roma, o coração do Império, tornou-se um símbolo de poder e riqueza.

 

A CRISE DO IMPÉRIO
A partir do século III, contudo, as contradições políticas, econômicas e sociais se intensificaram. Iniciou-se, então, uma grande crise, cujos efeitos, no fim do século V, desintegraram totalmente a porção ocidental do Império.
As disputas entre os exércitos provinciais pela sucessão imperial trouxeram um período de grande instabilidade política e militar. As legiões aclamavam e derrubavam imperadores a todo o momento. Aos poucos, a figura do Princeps Senatus foi substituída por um soberano de tipo oriental, ou seja, o poder do governante passou a ter fundamentação religiosa e, por isso, ainda mais despótica. O poder do senado romano ficou cada vez mais limitado à cidade de Roma.
Nessa mesma época, teve início uma crescente migração de povos germânicos vindos do leste. Além deles, as pressões dos partas - O Império Parta ou Parto (247 a.C.-224 d.C.), também conhecido como Império Arsácida - nas fronteiras orientais elevaram os custos da administração imperial com a manutenção de seus exércitos.
A escassez de escravos, em razão do arrefecimento das conquistas, diminuía a produção nos latifúndios, sobrando menos dinheiro para pagar os impostos. O mais grave, todavia, era o fato da às cidades produzirem pouca riqueza material. Os suntuosos monumentos, as grandes lutas de gladiadores, os enormes períodos dedicados aos jogos, tudo era muito grandioso, mas pouco produtivo. O foco da produção estava concentrado no campo e as cidades eram, essencialmente, grandes centros consumidores.
Enquanto as legiões podiam garantir o afluxo de riquezas, o abastecimento de escravos e o guarnecimento das fronteiras, tudo isso parecia não importar tanto. A partir do século III, no entanto, quando as diferenças entre as regiões do Império passaram a ter um grande peso nas disputas políticas e os invasores externos (invasões dos povos bárbaros) começaram a pressionar, os custos da manutenção do Império unificado tornaram-se enormes, trazendo uma grave crise socioeconômica, a qual abalou suas estruturas.

 

O BAIXO IMPÉRIO
No século IV, uma ampla reforma política proporcionou um período de sobrevida ao Império, mas acabou deslocando o centro de poder para o Oriente. O imperador Diocleciano, por exemplo, que era natural da ILÍRIA, promoveu uma grande reforma. Tomando o poder em 284, instituiu a tetrarquia, que dividiu o Império entre dois augustus e dois cesares, a fim de evitar as acirradas disputas pela sucessão imperial. Reestruturando toda a máquina burocrática e fixando preços máximos às mercadorias, em 301, garantiu maior estabilidade e segurança ao Império, pelo menos por um tempo. Ao abdicar por motivo de doença, em 305, reinstalou-se a anarquia militar.
Em 324, depois de uma violenta disputa entre generais do exército, o Império voltou a ter um único imperador: Constantino (313-337), que deu liberdade de culto aos cristãos (antes perseguidos implacavelmente), através do Edito de Milão (313), que combateu os invasores e, ao mesmo tempo, por medida de segurança, mudou a capital do Império (de Roma) para Bizâncio (antiga colônia grega). Essa cidade foi reconstruída e, em sua homenagem, passou a ser chamada de Constantinopla (atual Istambul).
Nesse período, um fenômeno diferente começou a acontecer: povos bárbaros, que muitas vezes conviviam com os romanos e chegavam até a fazer parte do exército, passaram a invadir as fronteiras do Império. Fugindo do avanço dos hunos, povo belicoso que vinha do Oriente, godos, francos, anglos, saxões e outros povos denominados pelos romanos como “bárbaros” cruzavam as fronteiras e se instalavam em terras romanas. Os imperadores, para contornar a situação, passaram a pagar esses povos para que eles realizassem a tarefa de proteção dos domínios romanos. Diante da ineficácia dessa medida, que ocasionou muitas disputas entre as duas partes, o imperador Teodósio distribuiu terras, diminuindo a pressão nas fronteiras. A política de doar aos bárbaros as terras invadidas, transformando-os em federados, aliados, tornou-se praxe. Com isso, o território romano, no ocidente e no norte da África foi diminuindo e reinos bárbaros aliados dos romanos foram surgindo.
Teodósio (379-395), o último imperador a exercer sua autoridade sobre todo o Império. Converteu-se ao Cristianismo (380).  Ele adotou o Cristianismo como religião oficial do Estado por meio do Edito de Tessalônica, em 380, estendendo a obrigatoriedade de seu culto para todos os súditos e proibiu outros cultos. No Concílio de Constantinopla, em 381, a organização dos cristãos adotou o nome de Igreja Católica (universal). Dividiu o Império, definitivamente, em dois: o Império Romano do Ocidente, que teria Roma como capital e enfrentava a grave crise econômica e territorial; e o Império Romano do oriente, que teria Constantinopla como sede (entregue a seu filho, Arcádio), estável militar e economicamente. Dois chefes bárbaros foram chamados como assessores. Um desses assessores, Estilicão, foi o principal responsável pela contenção dos avanços de outros povos bárbaros. Mesmo assim, em 410, Roma foi invadida e saqueada. Com a tomada da Península Ibérica e da Gália, os visigodos fundaram seu reino e diminuíram substancialmente o tamanho do Império Romano.
Em 476, após inúmeras outras invasões de outros povos, Roma, no Ocidente, estava reduzida à Península Itálica enquanto os demais territórios eram controlados pelos invasores, considerados aliados. Nesse ano, Odoacro, chefe dos hérulos, derrubou o imperador Rômulo Augústulo, pondo fim ao Império Romano do Ocidente. O Estado romano que deixava de existir, no entanto, permaneceu na memória dos conquistadores e no uso do latim popular que continuou a ser falado em muitas regiões. Anos depois, esse latim, misturado às línguas bárbaras, daria origem a línguas como o francês, o espanhol e o português. Para a posteridade, contudo, Roma deixou um riquíssimo legado cultural.
Menos afetado pela turbulência das invasões do século V, a parte oriental do Império Romano não apenas sobreviveu, com se tornou uma potência no mundo mediterrânico ao longo dos séculos seguintes.

 

Tancredo Professor . 2017
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